Quinta-feira, Agosto 05, 2004

BEIJO DE LÉSBICA

Recordo agora de uma das revelações feitas por Alídce que mais me chocaram. Foi beijada por uma lésbica. Correspondeu. Não acreditei. Haveria me envolvido com uma lésbica? Mas aquela altura já estava tão envolvido por Alídce que já não ligaria em dividi-la com outra mulher.

Mas foi só um susto.

- Eu estava meio bêbada, conta Alídce. E continuou: Estávamos arrumando uma colega que casaria naquele dia – 22 de janeiro de 1989 – quando fui chamada num dos quartos da casa por uma das colegas. Ao chegar ela disse que meu cabelo estava um pouco desgrenhado e se aproximou sob o pretexto de arrumà-lo. Foi se achegando até colar seus lábios nos meus e me beijar de forma ardente. Só efeito do vinho, correspondi. Mas, garanto, foi a primeira e única vez. Entre confusa e enojada deixei claro para ela que gostava era de homem. De ser possuída por homem, como você tem feito comigo nos nossos encontros.


Passei dias com esta confissão me martelando a mente. Mas os dias passaram e eu concluí que Alídce era, de fato, a mais feminina das mulheres que havia conhecido. Adorava vê-la com os olhos fora de órbita enquanto fazíamos sexo. Ah, minha, adorada Alídce.

ESPÍRITO EM ECLÍPSE

Depois de dias com o espírito em eclipse total, volto a escrever estas escrituras profanas. Foram dias sem podem sequer me olhar no espelho. Dias em que desejei não existir. Busquei me ocultar de mim mesmo. Mas o eclipse passou e estou de volta. Foi tudo saudade de Alídce. Recordações de dias que não voltam.

O pior é que ao retomar este romance corro o risco de ter recaídas. As lembranças que esta composição me traz, a saudade de Alídce... São um tomento para o meu espírito. Desde que ela se foi não tenho paz. Na verdade, perdi a paz desde que a encontrei. Perdi a paz e ganhei um grande amor, que vai me acompanhar pelo resto dos meus dias.

Onde andará a minha adorada Alídce? O que fará neste momento que escrevo um romance autobiográfico que a tem como personagem principal? Gostaria de encontrá-la uma vez mais apenas para dizer-lhe o quanto ainda ela vive em mim. Não importa que rumo tenha tomado a sua vida. Ela será sempre a rosa mais bonita no jardim das minhas lembranças. Isto não deveria ser um capítulo a ser inserido no romance. Mas vou inseri-lo. Não sei bem porque, mas vou.
Tomara que outros eclipses interiores não me façam mais interromper estas escrituras. Preciso conclui-las o quanto antes. Tenho a esperança que, uma vez prontas, parte dessas lembranças que me atormentam se dissipem, me deixem em paz.

Quinta-feira, Julho 29, 2004

AMNÉSIA PARCIAL

Hoje eu tenho quase a certeza que Alídce sempre teve um pequeno distúrbio psicológico. Talvez seja em decorrência de um castigo exagerado dado pela sua mãe, quando tinha apenas dez anos: uma surra com fio condutor de energia que lhe tirou sangue das costas. O analgésico oferecido em seguida foi mergulhá-la numa bacia com água e sal. Alídce numa perdoou sua mãe por isso. Sempre que falava do assunto chorava muito. Amargura sem tamanho. Mas, depois, tentava justificar:

- Eu era muito traquina. Fazia danação de mais!

Mas não perdoa a mãe.

Apesar de muito amorosa, em alguns momentos Alídce parecia ter uma pedra de mármore dentro do peito. Rancor, rancor e rancor. Era tudo o que sentia pela mãe. O seu passado de maus tratos acabou lhe rendendo prejuízos psicológicos. De vez em quando, Alídce era acometida de pequenos surtos de amnésia parcial. Falava uma coisa aqui e minutos depois já não lembrava de nada. De vez em quando esses surtos aconteciam quando estávamos juntos.

E ela sofria com isso. Dizia que não, mas sofria. Tentei por várias vezes levá-la a um médico, um psicólogo. Mas Alídce resistia:

- Eu não sou louca. Talvez quem esteja precisando de tratamento psicológico é você, dizia, ofendida, sempre que oferecia ajuda ou falava da sua amnésia parcial.

- Eu não disse nem fiz nada do que você está dizendo – era essa a sua reação. Sempre.

Acabei me sentindo na responsabilidade de cuidar de Alídce. Éramos eu e la sozinhos, perdidos naquele fim de mundo. Tínhamos família, filhos, mas nos sentíamos sós. Era como se não pertencêssemos às nossas famílias. O sentimento que nos fazia procurar um ao outro era exatamente o de querer pertencer a alguém. Não no sentido de posse, mas sentimental. O que tínhamos não nos bastava. A mim faltava o amor de Alídce, que cultivava como quem cuida de orquídeas. E ela dizia precisar de mim, do meu amor e do meu desejo por ela.

-Você me faz sentir mulher, como nunca ninguém fez - dizia sempre.

Com essa confissão ela me fazia sentir mais homem (não macho), mas homem, como mulher nenhuma nunca havia conseguido. O que nos unia – a mim e a Alídce – já não era mais só paixão sexual. Era amor, obsessão, dependência. Algo entre o sublime e doentio. Tínhamos até crises de abstinência quando passávamos muito tempo sem nos ver. Alguém me disse uma vez que amor é uma droga que pode matar por overdose. Duvidei. Agora, vivendo longe de Alídce, sei que isso é verdade. Cada dia que amanheço já não sou eu. Olho-me no espelho e não sou eu. Alídce levou consigo a minha alma.

Quarta-feira, Julho 28, 2004

MENTE EM STANDBY

Hoje sentei para escrever, mas não consegui. As recordações de Alidce vêm em turbilhão e me causam convulsão mental. Não consigo estruturar um único parágrafo. Vejo os olhos de Alidce na tela do micro. Esses aprisionadores de alma! Onde estará Alidce? Quero, com este romance, eternizar tudo o que a minha doce amada foi para mim. Ah, minha adorada Alídce.

O PRAZER DE ALÍDCE

Nunca havia encontrado uma mulher com a sensibilidade sexual mais aguçada do que Alídce. Sua ânsia pelo o amor, a sua disponibilidade para descobrir os caminhos do prazer, a sua curiosidade pelo novo fizeram de Alídce a mulher que ela é. Um desejo incontido parecia pulsar no seu peito ininterruptamente.

Alídce descobriu o prazer aos nove anos, quando brincava numa latada no quintal de casa. Imaginando-se montada num cavalo, o movimento de fricção, o contato do seu sexo com a superfície fria do seu parceiro metálico a levou ao seu primeiro gozo. Um orgasmo aos nove anos. Ainda criança Alídce descobriu os encantos de ser mulher.

Orgasmo. Alidce ainda não saiba o que era isso. Mas gostou da sensação que o contato do seu sexo com a latada lhe causou. Voltou várias vezes para brincar de cavalo. Essa quase iniciação sexual precoce transformou Alídce amante perfeita que é. O tempo passou e Alídce se transformou na figura feminina mais encantadora e sensual que já vi. Seu cheiro exala desejo. Seu olhar, quando lançado na minha direção, ainda que em situações formais, era um convite para o sexo.

Em cada uma das nossas transas Alídce se mostrava mais e mais desejosa de prazer. Sabia se entregar de uma forma que se satisfazia e me satisfazia. Exibia seu corpo sem pudor e se oferecia para que fizesse dela o que bem entendesse. Apreciava cada detalhe do ato.

- Adoro fazer sexo, dizia sempre sem pudor e entre risos, depois das nossas melhores trepadas. Suor e cheiro de sexo no ar. Ambiente de fazer inveja a Margareth Duras.

Estávamos ungidos pela deusa Vênus naquela tarde. Depois da confissão de Alídce, nova entrega regada a muita lasciva. Foi assim que a prendi a amar esta mulher misteriosa. Alídce passou a povoar meus sonhos. Passei a deseja-la todos os dias. O prazer de Alídce era o meu prazer. Nos tornamos dois em um, ainda eu fizéssemos parte não de um triângulo, mas de um quadrilátero amoroso.

O ENCONTRO DAS ALMAS

Fevereiro de 1992. Feira literária de Jaguanabi do Sul, pequena cidade desse estado que mais parece uma republiqueta sul americana. Foi lá que conheci Alídce, que até então não era nenhum pouco afeita a eventos literários. Estava lá apenas para acompanhar o marido. Um comerciante metido a intelectual que não perdia feiras literárias. Depois do nosso envolvimento passou a freqüentar bibliotecas comigo. Queria tornar-se uma mulher letrada. Inteligente ela era. E muito. Apenas prejudicada pela vida simplória que levava ao lado do seu marido, que ela dizia ser muito convencional.

- Odeio a monotonia da vida que levo em casa, queixava-se sempre.

Comigo ela sorria, se soltava. Era outra mulher. A mulher que sempre quis ser, mas que as convencionices da vida de dona-de-lar não permitiam. O marido não entendia o seu jeito de ser mulher. Egoísta, a ignorava.

Mas, voltando ao nosso encontro... Foi qualquer coisa de hilário. Estava autografando o meu segundo livro. O único exemplar que havia vendido naquela noite. Escritor frustado. Ainda não havia conseguido emplacar como autor. Mas Alídce estava lá folheando um dos exemplares, quando seu marido estúpido tropeçou e derrubou a estante onde eu trabalhava. Sem jeito, Alídce se aproximou para apanhar os livros arremessados ao chão. Acheguei-me dizendo que não se preocupasse. Que os organziadores do evento recomporiam a estante.

Até então, ainda não havia olhado nos olhos de Alídce. Minha alma até aquele instante me pertencia. Segundos depois já não era mais minha. Olhei nos olhos de Alídce. Fiquei prisioneiro. Amei Alídce naquele instante.

Depois daquele dia passei semanas intermináveis sem vê-la. Foram quase dois meses de procura intensa. Queria reencontrá-la a qualquer custo. O segundo encontro foi inusitado. Estava á procura de uma nova editora em Jaranaguá. Avistei Alídce ao longe, andando no passeio público, no meio da multidão. Vi-a de relance. Mas não tinha dúvidas: era ela, minha adorada Alídce. Sua imagem ficara retida nas minhas retinas desde o primeiro encontro. Agora tinha de alcançá-la. Precisava lhe dizer algo sobre o fato de ela ter aprisionado minha alma.

Saí em desparada na sua direção. Não precisava. Alídce também havia me enxergado de onde estava. Ficou lá, parada, à minha espera – foi o que confessara quando ainda arfantes conseguimos conversar. Antes que falasse qualquer palavra, Alídce se aproximou em silêncio e me beijou ardentemente. Seu corpo se grudou ao meu corpo. Estávamos suados. Ali experimentei o néctar da deusa Vênus. A boca de alídce acabara de sorver o que havia sobrado de minha alma. Estava consumado: nasceu ali a dilacerante paixão entre mim e Alídce.

Terça-feira, Julho 27, 2004

SOB O ENCANTO DA DEUSA VÊNUS

O meu primeiro encontro amoroso com Alídce foi inesquecível. Por toda a atmosfera de sedução e volúpia que o envolveu e pelo inusitado da situação. Era a primeira vez em dez anos de casado que me entregava aos encantos da deusa Vênus nos braços de outra mulher. Alídce me garantia: também era a sua estréia no mundo dos adúlteros.

Sem timidez aparente, Alídce despiu seu lindo corpo moreno deixando a mostra os motivos que me levariam a perder a cabeça nos anos que se seguiriam.

Naquele ambiente propício para a entrega de corpos, Alice externou suas emoções:
- Experimento uma mistura de sensações. Meu corpo vibra de desejo por estar me entregando a você e minha cabeça me condena pela traição que faço ao meu marido. Ele é um bom pai – completou em tom de culpa.

Depois disso, abriu seus lábios para receber os meus beijos e ofereceu seu corpo para o amor. Foi uma tarde de prazer intenso. Guardo na memória cada susurro de Alídce. Cada movimento do seu corpo em busca do êxtase e de como fiquei exausto e feliz por possui-la. Enfim, éramos amantes e adúlteros.

Uma vez consumado o ato, uma explosão de amor e prazer – que nos acompanhou por dois anos inesquecíveis – Alídce chorou. Não de arrependimento. De culpa, apenas. Afinal, deixara de ser mulher fiel. Era uma adúltera. Confessaria, meses mais tarde, que gostava das nossas escapadas vespertinas para o prazer. Mesmo que no momento seguinte batesse uma crise de consciência e ela chorasse torrencialmente. Assim era Alídce. Vivia entre o prazer da entrega total e sem pudor e as crises de consciência que a faziam se desmanchar em lágrimas. Mas quando passava o pranto, a minha doce Alídce vinha, novamente, buscar alento em meus braços numa nova entrega louca e cheia de desejo.

Domingo, Julho 25, 2004

O FIM ANTES DO FIM

Agora só tenho recordações. Alídce se foi e eu fiquei. Só. Completamente só. Fui tragado pelo seu enigma. Quis desvendar o mistério dos seus olhos e fui devorado por Alídce. Ela se foi e eu fiquei. Irreconhecível. Já não tenho passado nem presente. Sou meio zumbi, meio homem. Ou qualquer coisa entre isto e aquilo. Por Alídce perdi minha cabeça, minha alma, minha vida. Ela levou tudo consigo. Só deixou o nada que sou hoje. Ah, minha adorada Alídce! Onde você estará?

A GÊNSE

Tudo começou com aquela viagem de barco. Era janeiro de 1992. Quem diria que a minha vida mudaria tão radicalmente com uma simples viagem de barco? Nunca imaginei que aqueles quatro dias subindo o Rio Amazonas seria o início da minha caminhada para os braços de Alídce, a mulher mais linda, louca e fascinante que conheci. Um amor perfeito na hora errada. Uma amante inigualável. Aprendiz da deusa Vênus na arte do amor e do sexo. A parceria que todo homem gostaria de possuir, mas que só eu a tive nos braços.
É certo que pago um preço alto por ter me rendido aos encantos de Alídce: a quase loucura e a solidão dos dias que amanheço. Alídce foi a responsável por tudo de bom e de drástico que aconteceu na minha vida nos últimos dez anos.
A exuberância da região amazônica, a começar pela densa floresta que margeia o Rio Amazonas com suas águas caudalosas, no Pará, era o prenúncio do que eu viria a viver mais tarde. A correnteza do rio me levava para os braços de Alídce e eu nem sabia. Encontraria a mulher-enigma pouco mais de um mês depois da travessia do Amazonas. Minha vida anterior ficou para trás. Nunca mais fui o mesmo.
Talvez pelo que experimentaria depois, a viagem no “Santarém” foi a mais gostosa que fiz na minha vida. Aquele barco-hotel me trouxe para um outro mundo. Um mundo entre o urbano e o rústico, uma sociedade meio bárbara ainda. Quase um outro país. Uma republiqueta latino perdida no meio do nada. Vir ter numa cidade caliente, com cheiro de sexo em cada esquina. Lugar de mulheres muito amantes e de muitos amantes. Algumas quase cuplusivo-sexuais. Foi neste lugar que me perdi e me achei. Ali dei de cara com a minha adorada Alídce.

Sexta-feira, Julho 23, 2004

O AUTOR

Sou Gabriel. Não tenho nada de anjo. Pelo contrário, sou profano, como profana tem sido a minha vida, meus pensamentos e meus amores. Ás vezes sentimos a necessidades de exorcizar alguns demônios que nos atormentam interiormente. Principalmente nós escritores. Quer dizer, nem seu se posso ser chamado de escritor. Sou, na verdade, um rabiscador de papel. Se por acaso não gostarem das páginas que seguem, rasguem-nas, ateiem fogo, joguem fora. Mas tive que escrevê-las. Elas exteriorizam o enigma de Alídce, que quase me leva à loucura. Se é que a escritura dessas páginas já não é a materialização da minha loucura.