Hoje eu tenho quase a certeza que Alídce sempre teve um pequeno distúrbio psicológico. Talvez seja em decorrência de um castigo exagerado dado pela sua mãe, quando tinha apenas dez anos: uma surra com fio condutor de energia que lhe tirou sangue das costas. O analgésico oferecido em seguida foi mergulhá-la numa bacia com água e sal. Alídce numa perdoou sua mãe por isso. Sempre que falava do assunto chorava muito. Amargura sem tamanho. Mas, depois, tentava justificar:
- Eu era muito traquina. Fazia danação de mais!
Mas não perdoa a mãe.
Apesar de muito amorosa, em alguns momentos Alídce parecia ter uma pedra de mármore dentro do peito. Rancor, rancor e rancor. Era tudo o que sentia pela mãe. O seu passado de maus tratos acabou lhe rendendo prejuízos psicológicos. De vez em quando, Alídce era acometida de pequenos surtos de amnésia parcial. Falava uma coisa aqui e minutos depois já não lembrava de nada. De vez em quando esses surtos aconteciam quando estávamos juntos.
E ela sofria com isso. Dizia que não, mas sofria. Tentei por várias vezes levá-la a um médico, um psicólogo. Mas Alídce resistia:
- Eu não sou louca. Talvez quem esteja precisando de tratamento psicológico é você, dizia, ofendida, sempre que oferecia ajuda ou falava da sua amnésia parcial.
- Eu não disse nem fiz nada do que você está dizendo – era essa a sua reação. Sempre.
Acabei me sentindo na responsabilidade de cuidar de Alídce. Éramos eu e la sozinhos, perdidos naquele fim de mundo. Tínhamos família, filhos, mas nos sentíamos sós. Era como se não pertencêssemos às nossas famílias. O sentimento que nos fazia procurar um ao outro era exatamente o de querer pertencer a alguém. Não no sentido de posse, mas sentimental. O que tínhamos não nos bastava. A mim faltava o amor de Alídce, que cultivava como quem cuida de orquídeas. E ela dizia precisar de mim, do meu amor e do meu desejo por ela.
-Você me faz sentir mulher, como nunca ninguém fez - dizia sempre.
Com essa confissão ela me fazia sentir mais homem (não macho), mas homem, como mulher nenhuma nunca havia conseguido. O que nos unia – a mim e a Alídce – já não era mais só paixão sexual. Era amor, obsessão, dependência. Algo entre o sublime e doentio. Tínhamos até crises de abstinência quando passávamos muito tempo sem nos ver. Alguém me disse uma vez que amor é uma droga que pode matar por overdose. Duvidei. Agora, vivendo longe de Alídce, sei que isso é verdade. Cada dia que amanheço já não sou eu. Olho-me no espelho e não sou eu. Alídce levou consigo a minha alma.